Era uma cidade interiorana entremeada de serras.
O vigário caminhava em frente de uma procissão religiosa. Sol escaldante.
Os participantes, atentos à orientação do pároco, arrastavam-se lentamente e suavam copiosamente, no calor canicular de quase meio-dia.
A fé, a simplicidade e a humildade, características marcantes do povo do interior permaneciam inabaláveis ante o mormaço fustigante.
O cortejo seguia normalmente.

Bendito, louvado seja!
Bendito, louvado seja!
O Santíssimo Sacramento!

Era a voz uníssona dos participantes que cantarolavam devotamente. Imbuídos do espírito religioso não ousavam sequer levantar as cabeças nem observavam à frente. Eram conduzidos apenas pela voz do celebrante, como ovelhas que obedecem instintivamente a seu pastor.
Deu-se que em sentido contrário uma jardineira, desgovernada, despontava rapidamente no alto do morro.
O cura, impaciente, olhou-a assustado, observando que o ônibus se aproximava cada
vez mais de seus paroquianos que participavam do séquito.
Os fiéis, impávidos, cantavam confiantes:

Louvando a Maria
o povo fiel
A voz repetia
de São Gabriel:
Ave, Ave, Ave, Maria!
Ave, Ave, Ave Maria!

O sacerdote, estarrecido, bem que tentou avisar os fiéis do perigo iminente.
Seu esforço, no entanto, era em vão. A devoção que os circunstantes imprimiam no ato religioso da procissão falava mais alto e dispensava quaisquer comentários. Não havia nada que lhes desviasse atenção.
O padre, cada vez mais desesperado, lançava mão de todos os recursos para chamar a atenção dos presentes, até que, imaginando não poder mais conter o acidente, gritou, em alto e bom tom:
– Pessoal, a jardineira!
E ai o coro, obedecendo a ordem superior, cantarolou entusiasmado:

Ó jardineira, por que estás tão triste?
Mas o que foi que lhe aconteceu?
foi a camélia que caiu do galho
deu dois suspiros e depois morreu!

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