A Páscoa da Igreja é a Páscoa de Cristo.
A Páscoa de Cristo é a Páscoa da gente”.

 

O termo mistagogia voltou à baila, sobretudo no âmbito sacramental, pastoral e espiritual. O retorno de um termo antigo revela sua força. O termo remonta aos padres capadócios que se encarregaram de aplicar à vida cristã mais a terminologia que as noções gregas de mistério. Em sua origem cristã, a palavra mistagogia significa “conhecimento do mistério contido nas Escrituras e conhecimento do mistério contido na Liturgia”, segundo G. Boselli. Portanto, a mistagogia atesta que a Liturgia inicia ao mistério, celebrando-o.

 

A doutrina dos mistérios não é a mesma coisa que mistagogia. Para os gregos, o mistério era algo que deveria permanecer oculto, para os cristãos o mistério deveria ser revelado, experimentado e celebrado. Mistagogia é celebrar o Deus mistério que se revela. Na compreensão de muitas pessoas ainda hoje o mistério é algo escondido. Para os cristãos, há a epifania do mistério de Deus e ela é sempre um ato de Deus. Deus se comunica com o seu povo. Ele é autor da mistagogia em seu Filho, ou seja, a mistagogia requer deixar-se conduzir pela manifestação de Cristo Encarnado na Igreja, seu Corpo místico.

 

A mistagogia é uma ação cristológica. “Jesus é o mistagogo de seus discípulos e a relação entre Jesus e os doze é aquela do iniciado que, por sua vez, inicia outros ao mistério de Deus” (São Gregório Nazianzeno). Em outras palavras, é a ressurreição de Jesus que abre as mentes dos discípulos para a compreensão das Escrituras. A ressurreição de Jesus nos torna mistagogos. A ressurreição de Jesus nos introduz definitivamente nos mistérios da Salvação. A mistagogia inicia os cristãos no mistério contido na ação litúrgica.

Lucenario

Nesse momento refletimos sobre o sentido espiritual da Vigília Pascal: o mistério da Ressureição. Não é possível explicar parte por parte o rito da Vigília Pascal, mas contribuir brevemente para a compreensão do sentido transcendente do “sábado santo”. Trocando em miúdos, a mistagogia faz a Páscoa de Cristo ser páscoa da gente. Celebramos o Mistério Pascal de Cristo para sermos mistério pascal no mundo. A Vigília Pascal é uma catequese litúrgica para e com a comunidade cristã.

 

A Vigília Pascal é a “mãe de todas as vigílias”. Ela é ápice de todo o ano litúrgico. Unifica e conecta todos os tempos litúrgicos. “Segundo antiqüíssima tradição, esta noite é ”uma vigília em honra do Senhor” (Ex 12,42). Assim os fiéis, segundo a advertência do Evangelho (Lc 12,35), tendo nas mãos lâmpadas acesas, sejam como os que esperam o Senhor, para que ao voltar os encontre vigilantes e os faça sentar à sua mesa (IGMR)”. A Vigília Pascal consiste na espera vigilante da Igreja que “anuncia a morte e proclama a Ressurreição do Senhor” (Aclamação Memorial). Para Orígenes, a vigília pascal constitui-se como a mistagogia de conversão, purificação e iluminação. A Morte de Jesus inaugura um modo totalmente novo e maior da sua Presença.

 

A Vigília Pascal deve ser celebrada após o anoitecer do sábado. O sábado é o sétimo dia da semana. Depois de seis dias em que o homem participa do trabalho criador de Deus, o sábado é o dia do repouso. Na Igreja primitiva algo inédito aconteceu: no lugar do sábado, do sétimo dia, entra o primeiro dia. Aqui se fala da semana avessa, ou seja, a semana não está orientada para o sétimo dia, mas inicia com o primeiro dia como o dia do encontro com o Ressuscitado. O primeiro dia da semana era o terceiro depois da Morte de Jesus. O primeiro dia, segundo o texto de Gênesis, é aquele em que teve o início da Criação, tornara-se agora o dia da nova Criação. Nós celebramos o primeiro dia. Celebramos a plenitude do sábado e a vitória do Criador e da Criação.

 

A celebração litúrgica da Vigília Pascal é profundamente caracterizada “pelo fogo que se torna luz”. A mistagogia une os dois aspectos: o fogo e a luz. O fogo novo acende o Círio Pascal, que se propaga em uma comunidade de luzes. Destaca-se a procissão iniciática na Igreja com o fogo novo ou “nas mãos lâmpadas acesas”. A vela batismal é o símbolo da iluminação que nos é dada pelo Batismo. A luz de Deus penetra nosso ser e somos nós próprios filhos da luz. Recordamos da narrativa bíblica que diz: “haja luz” (Gn 1,3) que se integra com a invocação: “foste iluminado(a) por Cristo, caminhe como filho(a) da luz” (RICA). Em resumo, a Criação é luz de Deus. A Ressurreição de Jesus é epifania de luz. Na Vigília Pascal a Igreja simboliza o Mistério da Luz de Jesus Cristo no Círio Pascal, simultaneamente fogo e luz. A Igreja, farol do Evangelho, é chamada para iluminar o mundo.

 

Assim que a vela for acesa, segue o antigo rito do Lucernário, em que a vela é carregada por um sacerdote ou diácono através da nave da igreja, em completa escuridão, parando três vezes e cantando a aclamação: “lumen christi” ou Luz de Cristo, ao qual a assembleia responde “deo gratias” ou Graças a Deus. A vela prossegue através da Igreja, e os presentes portam velas que são acesas no Círio pascal. Este gesto simbólico representa a “Luz de Cristo” se espalhando por todos a escuridão é diminuída. Assim que a vela tenha sido colocada num lugar dignamente preparado no santuário, ela é incensada pelo diácono.

 

Em seguida, entoa-se solenemente o canto “exsultet”. A proclamação da Páscoa ou precônio pascal é um antiguíssimo hino litúrgico, dos primeiros séculos, citado e inspirado em vários Santos Padres como Ambrósio, Jerônimo e Agostinho. Ele é conhecido, também, como pregão Pascal. Ele revela o significado teológico do Mistério Pascal. O precônio liga-se à seqüência da Liturgia de Pentecostes. Nele, a Igreja pede que as forças do céu exultem a vitória de Cristo sobre a morte, passando pela libertação do Egito e até mesmo agradecendo a Adão pelo seu pecado. Ele nos introduz no tempo que se segue, o tempo pascal, que se completará com a solenidade de Pentecostes.

 

A Vigília Pascal estrutura-se também com uma liturgia batismal, ou seja, introduz os cristãos no mistério do novo nascimento em Cristo. Faz-nos contemporâneos do Batismo de Jesus no Jordão. A água é um sinal mistagógico. No Batismo, Jesus entra na pessoa humana pela porta do coração. Ele, o Ressuscitado, vem até nós e une-se a nós conservando-nos o Espírito Santo. A renovação das promessas do Batismo é um exercício mistagógico. É uma profissão comunitária e espiritual. Renova-se o desejo de passar pelas águas do dilúvio e pelo banho espiritual no Jordão. Jesus é o novo Moisés e isso fica evidente na liturgia batismal, Moisés havia sido colocado pela mãe em um cesto e deposto no Nilo. Em seguida, fora tirado para fora da água, trazido da morte à vida. Jesus desceu às águas da morte. Da profundidade da morte Ele subiu para a vida.

 

Evidentemente este texto ainda se estenderia muito se tratássemos os demais elementos mistagógicos da Vigília Pascal. Ela é de beleza inestimável e inesgotável. A Ressurreição alcançou-nos e abraçou a nossa história. Viva com Ele, ame como Ele e proclame-o: “Jesus Cristo vosso Filho que, ressuscitando de entre os mortos, iluminou o gênero humano com a sua luz e a sua paz e vive glorioso pelos séculos dos séculos. Amém” (precônio pascal).


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